Desmame total – quando?

Dr. Marcus Renato, 28/3/2003

Esta é uma questão polêmica no mundo ocidental na atualidade. As mulheres têm recebido conselhos contraditórios, porque nós profissionais de saúde não chegamos à um consenso. A Academia Americana de Pediatria recomenda que os lactentes devem ser desmamados já aos 12 meses, enquanto a OMS e o UNICEF afirmam que os bebês devem ser amamentados até os 2 anos ou mais . Algumas mulheres ocultam que ainda amamentam seus filhos maiores de 1 ano para evitar a desaprovação dos pediatras e dos membros da família.

Estudos antropológicos revelam que em muitas culturas não ocidentais as mulheres amamentam comumente seus filhos até os 3-4 anos. Serão elas ou nós os excêntricos ? 
Não seria interessante nos compararmos a outros mamíferos para determinar qual a idade do desmame “ideal” se não tivéssemos sido influenciados por questões comerciais ou culturais?


Desmame ao alcançar o triplo do peso do nascimento – Esta idéia de que os mamíferos desmamam quando suas crias triplicam ou quadruplicam seu peso de nascimento aparece extensamente na bibliográfica sobre Amamentação (Lawrence, 1989). As pesquisas indicam que o desmame nos grandes mamíferos (incluídos os primatas – macacos, chipanzés, gorilas e o homem) ocorre alguns meses depois que o peso do nascimento de nossos filhos quadruplicam (Lee, Majluf & Gordon, 1991). Nosso lactente quadruplica seu peso ao nascer em torno dos 27 meses (os meninos) e aos 30 meses (as meninas).

Desmame ao alcançar 1/3 do peso do adulto – Estudos sugerem que os primatas se comportam como outros mamíferos desmamando a cada um dos seus descendentes quando eles alcançam um terço do peso de adulto (Charnov & Berrigan, 1993). Os humanos: alcançamos tamanhos bastante variáveis, porém com este critério o desmame teria lugar entre os 4 – 7 anos de vida.

Desmame de acordo com o tamanho corporal feminino – Harvey & Clutton-Brock (1985) publicaram um estudo que incluía uma equação para calcular a idade do desmame em função do peso do corpo da mulher adulta. Esta fórmula prediz que o desmame para os humanos seria entre os 2,8 e 3,7 anos.

Desmame em função da duração da gestação – Entre as espécies de primatas de grande tamanho, a duração do período de aleitamento materno excede amplamente a duração média do período de gravidez. Para os primatas mais próximos da espécie humana, o Chipanzé e o Gorila, a duração da amamentação é superior em mais de 6 vezes a duração do período gestacional. Os humanos: nos encontramos entre os primatas maiores e compartimos mais de 98 % do material genético com os Chipanzés e Gorilas. Utilizando-se deste critério, a idade natural do nosso desmame seria 4,5 anos – 6 vezes a duração da gravidez.

Desmame em função das erupções dentárias – De acordo com as investigações de Smith (1991), muitos primatas desmamam sua prole quando rompem os seus primeiros molares permanentes. Nossos molares emergem entre os 5,5 ou 6 anos. É interessante salientar que nossos filhos alcançam autonomia imunológica em torno dos 6 anos de vida, o que nos permite inferir que, ao longo de nosso recente passado evolutivo, nossas crianças dispunham de uma imunidade ativa até esta idade aproximadamente.

Os dados disponíveis sugerem que as crias humanas estão desenhadas para receber todos os benefícios do Aleitamento ao Seio durante um período mínimo de 2,5 anos e um aparente limite máximo de 7 anos. Hoje em dia muitas sociedades podem satisfazer as necessidades nutritivas das crianças a partir do 3º/4º ano de idade com alimentos de adultos modificados. As sociedades industrializadas podem compensar alguns (e não todos) os benefícios imunológicos da amamentação por meio de vacinas, antibióticos e melhorias sanitárias e higiênicas. Porém, as necessidades físicas, cognitivas e emocionais das crianças persistem.

Os profissionais de saúde, principalmente os pediatras, nutricionistas, psicólogos, os pais e o público em geral deveriam tomar consciência de que para alguns autores, entre os 3 e os 5 anos é uma idade razoável e apropriada para o desmame dos humanos, ainda que seja pouco habitual, e não cultural em nossas sociedades amamentar uma criança quando ela não é mais um bebê.

 

Referência

Dra. Katherine A, Dettwyler – Departamento de Antropologia – Texas A & M University College Station Texas. “Breastfeeding Abstracts” Ag. 1994, Vol . 14, no. 1

 

Leitura recomendada 

“Tabus e Temores acerca del Destete Tardio” por Justin P. Call, MD (“Nuevo Comienzo” Nov.- Dec. 1990)

 

Agradecimento

Profa. Dra. Alejandra Marina Mercado – Universidad Nacional Del Camahue – Escuela de Medicina – Argentina

 

 

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