Amamentar prolongadamente? pode?

20/05/2012 – 09h00

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Mães que amamentam os filhos por mais de dois anos causam controvérsia

CLÁUDIA COLLUCCI
DE SÃO PAULO

De mansinho, Paola se aninha no colo da mãe. São 10h de quarta-feira, ela está gripada e quer mamar. A menina se ajeita e começa o ritual da amamentação. O inusual na cena é ela ter sete anos.

Controversa, a amamentação prolongada vem sendo adotada por muitas brasileiras adeptas do movimento chamado Criação com Apego (Attachment Parenting), que também prega que os
pais durmam junto com os filhos até quando eles quiserem.

O movimento nasceu há 20 anos nos EUA, após a publicação do livro “The Baby Book” (O livro do bebê, em tradução livre), do pediatra William Sears. A obra defende uma educação amável e sem castigos e punições.

Na semana passada, o assunto ganhou destaque após a revista “Time” estampar na capa uma mãe amamentando o filho de três anos. O garoto usa um banquinho para alcançar o seio materno.

Não há uma idade limite para o desmame, segundo a SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria). A OMS (Organização Mundial da Saúde) preconiza aleitamento exclusivo até os seis meses de idade. E recomenda que as crianças continuem sendo amamentadas no peito por até, pelo menos, dois anos.

“Não há estudos que apontem prejuízo às crianças que são amamentadas acima de dois anos. O momento de parar é uma decisão entre mãe e filho e está muito relacionada a fatores culturais”, diz a pediatra Graziete Vieira, do departamento de aleitamento materno da SBP.

Segundo ela, pesquisas mostram que, quanto maior o tempo e a dose de amamentação, mais proteção imunológica terá a criança.

Na prática, porém, a maioria dos pediatras é avessa à proposta do aleitamento prolongado. “É uma aguinha com um pouquinho de sabor. O leite já não tem mais a mesma quantidade de nutrientes”, diz o pediatra Cid Pinheiro, professor na Santa Casa de São Paulo.

Ele também aponta possíveis prejuízos nutricionais. “Se a criança for mamar em horário próximo a uma refeição, pode perder a fome e não se alimentar corretamente.”

Para o pediatra, crianças que mamam no peito ou dormem na cama dos pais com “com cinco, seis, sete anos” podem ter prejuízos psicológicos. “Será que é esse tipo de segurança que elas precisam dos pais? Será que não estamos postergando o amadurecimento delas?”

VIDA REAL

A médica Marina Rea, membro do Comitê Nacional de Aleitamento Materno do Ministério da Saúde, argumenta que, no aleitamento prolongado, a criança continua a receber uma quantidade de nutrientes “apreciável”, tanto em calorias (proteínas) quanto de micronutrientes (como vitamina C).

Ela reconhece, porém, que, com o passar do tempo, é pequena a quantidade de leite materno. “Mas é um líquido de alta qualidade.”

Para ela, a relação emocional que existe na continuidade da amamentação da criança maior merece mais estudos. “Fala-se em crianças menos estressadas e menos agressivas. Mas não há comprovação científica.”

No entanto, para a psicóloga especialista em educação Roseli Caldas, professora da Universidade Mackenzie (SP), o aleitamento prolongado distancia as crianças da vida social real e pode ser um risco à autonomia delas. “A gente não precisa disso para estar com o outro”, diz.

Segundo ela, a amamentação é um vínculo de suprimento, que só cabe quando a criança é pequena. “Depois, deve ser substituído por outras mediações. As pessoas têm que estar juntas não só pelo suprimento da outra, mas pela presença.”

Isso também cabe para o dormir compartilhado. “A criança precisa criar o seu espaço e respeitar o do outro.”

*

“Se eu estiver em casa, ela quer mamar o dia inteiro; nunca tomou leite artificial”

Márcio Lima/Folhapress
Chenia Silva, 35, que amamenta a filha Zaya, que completa 3 anos no próximo dia 6.
Chenia Silva, 35, de Salvador, amamenta a filha Zaya, que completa 3 anos no próximo dia 6

A pequena Zaya completa três anos no próximo dia 6 e anunciou que nesta data deixará de mamar no peito.

A mãe, a historiadora e doula Chenia d’Anunciação, 35, de Salvador (BA), não está lá muito confiante e se programa para mais um ano de aleitamento. “Até os cinco, não sei, não, mas, até os quatro, talvez eu ainda amamente.”

Zaya foi amamentada exclusivamente no peito até os seis meses. “Era livre demanda, dia e noite.”

Depois que voltou a trabalhar, Chenia tirava o leite pela manhã. “A noite, ela voltava a mamar no peito. Até hoje, leite só o meu. Ela nunca tomou leite artificial. Se eu estiver em casa, ela quer mamar no peito o dia inteiro.”

A cama também é compartilhada. “Ela tem o quarto dela, mas adora dormir com a gente. Não vemos problema.”

Já amamentar a noite é cansativo, diz Chenia. “Ela mama a noite toda. Fica pendurada ali, cantando: ‘Teta, teta, tetinha'”.

Chenia diz que enfrenta preconceito por ainda amamentar a filha. “A sociedade tem um pouco de aversão a criança pequena, quer que logo vire adulto. Mas se a gente consegue dar atenção a elas neste período e deixar as coisas fluírem, com o tempo, elas vão tomando o caminho delas, sem pressa.”

“Não é tranquilo amamentar uma criança de 7 anos; existe um preconceito”

Simon Plestenjak/Folhapress
Fabíola Cassab amamenta a filha Paola, de 7 anos
Fabíola Cassab amamenta a filha Paola, de 7 anos

A advogada Fabíola Cassab, 35, amamenta a filha Paola há sete anos. Ambas negociam o fim do aleitamento, que já não é tão frequente. “Se ela sente que vai ficar doente, mama”, diz a mãe, que coordena um grupo de mães chamado Matrice.

E até quando você pretende mamar, Paola? “Eu tava pensando de ir até uns oito, nove anos”, diz a garota. A seguir, trechos do depoimento de Fabíola à Folha.

“Quando a Paola nasceu achei que amamentar seria fácil. Mas não foi. Ela chorava muito, não engordava, meu bico rachou.

Pretendia amamentar até os oito meses. Mas li vários artigos que diziam o quanto é bom para o desenvolvimento motor, intelectual e social a criança ser amamentada prolongadamente.

Quando ela tinha dois anos, pensei: ‘Já que eu lutei tanto para amamentar e há tantos fatores que me encorajam, por que vou parar?’. Pensei que pudesse ir até uns cinco anos. Nunca imaginei amamentar até os sete. Mas acredito que toda relação chega ao fim naturalmente.

Ela não mama mais todo dia. Mas, se sente que vai ficar doente, mama, mama, mama. Para mim, o leite é mais uma questão imunológica do que nutricional ou emocional.

Não é muito tranquilo amamentar uma criança de sete anos. Existe um preconceito muito grande.

Na escola, já me questionaram e eu logo pergunto: ‘Como ela está?’. Aí eles elogiam, dizem que ela está bem, escreve bem, lê bem.

Meu marido me apoia muito, eu não conseguiria ter dado esse passo sozinha. A amamentação prolongada não limita a minha vida. Viajo a trabalho, e a Paola também é uma criança superindependente, dorme na casa das amigas, faz festa do pijama em casa, enfim, é perfeitamente saudável.”

“Fui muito criticada”, diz Melissa, que amamentou dois filhos ao mesmo tempo

Isadora Brant/Folhapress
Melissa e sua família em sua casa, em Itatiba; ela amamentou todos os filhos no peito
Melissa e sua família em sua casa, em Itatiba; ela amamentou todos os filhos no peito e é consultora de amamentação

Na casa da família Sato, nunca houve berço. O quarto dos pais é território livre para os filhos desde o nascimento. De certa forma, o peito da mãe, Melissa, 32, também é.

O primogênito Samuel, 7, tinha três anos quando a mãe engravidou da irmã, Regina, 5. Mesmo assim, Melissa continuou amamentando o filho.

“Fui bastante criticada, diziam que todos ficariam desnutridos. Mas pesquisei bastante e me senti segura.”

Regina nasceu em casa. Na época, a família morava nos EUA. Os irmãos dividiram o seio materno por um ano, até que Samuel desistiu do leite da mãe, aos quatro anos e três meses. “Ele já estava na escola e foi pedindo cada vez menos até parar de vez.”

Regina mamou até os três anos, quando Melissa já gestava Dimitri. “Um dia ela pediu para mamar. Pegou o bico, mas logo soltou disse: ‘ah, mamãe, não sai mais nada.’ E nunca mais pediu.”

Dimitri, hoje com um ano e meio, segue mamando quando bem quer. Livre demanda, como diz a mãe, que amamenta quase que ininterruptamente há sete anos. O menino também nasceu em casa, em uma chácara em Itatiba (SP) onde vive a família.

Com tanta experiência, Melissa se tornou consultora de amamentação e hoje atua orientando gestantes e mães.

Ela também sempre carregou os filhos pequenos em panos amarrados junto ao corpo (“slings”). Preenche todos os requisitos da chamada “criação com apego.”

Ela e o marido Márcio, professor de inglês e espanhol, só veem vantagens no estilo de criar os filhos.

“Isso não quer dizer que não há limites. Aqui todos se respeitam, têm deveres.”

Melissa também não vê nenhum drama no fato de os filhos dormirem, quando quiserem, no quarto do casal.

“Não vejo problema. Eles crescem e depois não precisam mais disso.”

http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/1092702-maes-que-amamentam-os-filhos-por-mais-de-dois-anos-causam-controversia.shtml

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15 Responses to Amamentar prolongadamente? pode?

  1. Cintia Tanaka disse:

    Adorei a matéria na Folha SP! Vc está linda! Realmente, nossa sociedade quer mesmo que os nossos pequenos se tornem logo adultos. Percebo preconceito com a amamentação em público dos pequenos, que dirá dos maiores… Mas tirar uma mamadeira para dar pra criança no metrô não tem nada de mais… Os valores estão todos invertidos(triste).
    Parabéns pela abertura da discussão desse tema!

  2. paty disse:

    oba, também gostei! estou esperando meu segundo filho e não planejo desmamar meu bebê de um ano e um mês! obrigada pelo apoio!

  3. Ign"es disse:

    7 anos é demais!!!!!!!!!!!!!! Meu filho mamou até quase 2 anos eu sou super favorável à amamentação, mas acho que tudo tem limite e a criança não sabe quando parar, é o adulto que precisa estabelecer os limites, senão eles não terão parâmetros para nada. Esse processo é exaustivo para a mãe e para uma criança desta idade não me parece adequado…ela não precisa disso. Acho que a amamentação neste caso esta sendo usada como meio para conseguir o aconchego quando a criança está sensível, penso que poderiam encontrar outros meios. Meu filho ainda é “apaixonado” pelo peito, gosta de fazer carinho, cheirar, beijar…mas eu sempre digo a ele: “Você não é mais um bebê, n’ao precisa de peito!

    • Ficamos muito felizes em saber que vc amamentou seu filho até dois anos. Se pensarmos que há 20 anos amamentar até dois anos era algo impensável, quem sabe daqui a 20 anos a recomendação da OMS tb mude. Nós não conhecemos nenhum estudo que comprove que uma amamentação tão longa cause algum maleficio Fabiola

  4. Kátia Seffer disse:

    Não vejo problema nenhum amamentei minha filha mais velha até 3 anos e 2 meses e ainda amamento a minha mais nova que completou 3 anos dia 07/11. Cada mãe sabe de si e quando vai parar com a amamentação.

  5. Luciana disse:

    Adorei a reportagem,eu amamentei a minha filha ate 2 anos e 8 meses,ela parou de mamar,pq nao era mais legal pra mim. Agora,se a mae ea crianca se sentem bem q mal tem..

  6. Evelyne Ofugi disse:

    Essa matéria é ótimo! Mamei até os 6 anos de idade e sinceramente sou muito bem esclarecida e não tive qualquer problema emocional ou psicológico. Isso não tem nada a ver. Tudo depende de como a mãe consegue lidar com esse processo, como caminha a relação entre mãe e filho e disciplina nos horarios em que a criança se alimenta. Falar que é só uma aguinha com sabor ou que atrapalha, ou fazer isso ou aquilo… não cabe muito ao pediatra. Orientar, aconselhar por algum motivo extraordinário, aí tudo bem. Se a mãe e a criança não conseguir lidar com a situação ou se está contribuindo para algum problema na dentição ou algo parecido, o aconselhamento é bem vindo, mas generalizar e falar como tal… é complicado. Meu filho tem 2 anos e com certeza irá mamar por mais tempo. Devendo isso por que achei de fundamental importância para o meu crescimento, amadurecimento e desenvolvimento. A criança que fica no peito por mais tempo… já que estamos falando em pesquisas… elas apontam uma maior desenvoltura, criatividade, autonomia e confiança. Onde tem problema psicológico nisso? Está na hora de rever alguns conceitos e ver que a realidade de cada um é diferente, a vida de cada um é diferente, bem como a educação dada e a forma como as coisas são passadas para nossos filhos!
    Então pergunto… amamentação ou porcarias…papinhas industrializadas etc? pq é isso o que está acontecendo no mundo de hoje.

  7. Fabiana disse:

    E o casamento aguenta quanto tempo? Digo casamento de qualidade! Repensem antes de quererem aderir a este tipo de loucura, primeiro vem o que os uniu – o amor do casal, depois os mimos dos filhos, é obvio que a dedicacao não será só ao marido , mas priorizar totalmente os filhos e esquecer a intimidade com o marido resultará em fracasso do relacionamento.

    • Evelyne Ofugi disse:

      Acho que vai muito de cada um e de como cada um consegue lidar com isso! Meus pais são muito bem casados até hoje e eu não deixo o meu marido de lado por isso! Também sou muito bem casada e apaixonados até hoje! 🙂

    • robertarez1 disse:

      Fabiana, alimentar, acolher e dar carinho é mimo? Acho que é você que deveria repensar esse ponto, estamos falando de uma necessidade da criança e não de um capricho.

      E quem foi que disse que a intimidade precisa ser esquecida? De todos os problemas que tenho com meu marido, amamentar o meu filho (e dormirmos todos juntos, diga se de passagem) está longe de ser um deles. Aliás, pelo jeito que vejo ele falando com os amigos, acredito que é uma das coisas que o faz me admirar como mãe. O que fortalece muito nossa relação…

      Para mim, essa visão de amamentar e se doar a cria é esquecer do marido é fruto de uma visão machista que acredita que o corpo feminino serve exclusivamente ao marido e os filhos têm direito durante um curto espaço de tempo. Reforçada por esse mito que estragará o casamento.

      Ah, uma história que contradiz tudo isso: há umas semanas eu estava esgotada de amamentar, meu filho queria mamar para dormir e eu simplesmente não aguentava mais. Comecei a chorar enquanto me forçava a amamentá-lo, e lógico que meu filho começou a chorar junto. Meu marido viu e veio nos acalmar. Deu colo para mim e pro meu filho, me acalmou, me disse o quanto eu tinha sorte por querer amamentar, ter leite para isso e não ter dificuldades. Acalmou o choro do meu filho. E ficou conosco. Foi um dos momentos mais gostosos, nos uniu como pai, mãe, filho e também como marido e mulher.

    • suellen disse:

      se foi o amor que uniu o casal nao sera a dedicaçao aos filhos que ira separa-los! e havendo dialogo entre esse casal nao havera duvidas…

  8. Mari disse:

    E engraçado ver que por causa da internet , esses novos tempos, e essa cultura de supervalorizar a maternidade , que essas polêmicas surgiram, minha vó não amamentou meu pai, ele tomava leite de vaca, minha outra vó amamentou minha mãe até seis anos, quando eu era criança via as mulheres amamentando os filhos nas ruas tranquilamente, vejo as tias do meu marido conversando umas falam que davam mamadeira desde que nasceram e outras falam que só deram o peito, estão todos vivos, saudáveis, a família cresceu , duplicou, agora a gente deve se perguntar: O que mudou tanto assim? parir é anormal? existe uma regra pra ser seguida? acho que a maior regra da maternidade é o amor!

    • ana disse:

      Sei lá, acho que tudo mudou muito: mães trabalhando fora o dia todo, crianças na escola em tempo integral, estresse, correria, pedofilia nas ruas…

  9. Ana Julia disse:

    kkkk tenho um exemplo bem bacana: o Zico, aquele jogador de futebol famoso, depois tecnco pai de 4 ou 5 filhos…mamou até 7 anos…sem prejuízo algum, me parece…pelo contrário, baixinho, charmoso, inteligente e de bem com a vida!

  10. ana disse:

    Amamentei meu filho por uno a acho que foi o suficiente, mas o que percebi, é que depois que parei de amamentar, ele começou a comer melhor e se desenvolver emocionalmente, é como se corta-se o cordão, isso é necessário, criou novos laços com família e escola. Uma outra coisa que vi aqui e achei interessante, a questão do casamento, da vida sexual, como fica nos casos amamentação muito prolongada? E não adianta falar que é pai, que entende. Homens não pensam como mulheres!!!

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