Vale a pena persistir na amamentação?

Mães que acreditam não ter leite suficiente devem checar outros fatores de desenvolvimento do bebê antes de correr para fórmulas

Renata Losso, especial para o iG São Paulo

Antes de pensar em escolher uma mamadeira para o filho, é comum as mães passarem por dificuldades e até mesmo angústias na hora da amamentação. Segundo o presidente do Departamento Científico de Aleitamento Materno da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), Luciano Borges Santiago, as queixas maternas mais frequentes em relação ao próprio leite é de que ele não satisfaz a criança: ou é fraco, ou a quantidade é pouca. Porém, de nada vale se desesperar e partir para as fórmulas substitutas do leite materno presentes no mercado: muitas destas queixas são, na verdade, equívocos.

De acordo com o especialista, essa sensação das mães é, na maioria das vezes, insegurança. E existem alguns fatores que colaboram para o receio feminino: “É normal que, no primeiro mês de amamentação, as mulheres sintam que o peito está bastante cheio e às vezes o bebê nem consegue mamar todo o leite produzido. Mas a partir do terceiro mês a produção de leite se estabiliza e não se acumula mais”. Neste momento, a interpretação das mães de que a produção está em baixa é tão errônea quanto achar que não tem leite nos primeiros dias da amamentação, quando o colostro, precursor do leite materno, é produzido.

O colostro possui uma aparência mais aguada e é produzido no pós-parto antes da descida do leite, que pode acontecer até 72 horas depois do nascimento do bebê. “Por ele ser parecido ao soro, muitas mulheres acreditam que o colostro não é suficiente para sustentar o bebê, mas ele é”, explica Marcus Renato de Carvalho, professor do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e consultor em amamentação. Porém, a quantidade que sai do seio normalmente é pequena e facilmente as mães se desesperam, principalmente quando o bebê chora sem outra razão aparente que não a fome.

Porém, segundo Lucilia Santana Faria, pediatra do Hospital Sírio Libanês, em São Paulo, é preciso lembrar que, até aproximadamente os quatro meses de idade, os recém-nascidos possuem cólicas ocasionadas pela maturação do intestino que os fazem chorar bastante. “Normalmente elas acontecem entre o fim de tarde e o início da noite, então é comum que eles chorem neste horário”, explica ela. A vontade de usar o seio da mãe como chupeta também pode ser um dos motivos para o choro.

Por estar na fase oral, que acontece durante primeiro ano de vida e marca uma etapa do desenvolvimento onde o prazer e a experimentação da criança passam necessariamente pela boca, é possível que o bebê chore por apenas querer “chupetar” o seio da mãe, e não exatamente por estar com fome: “Se ele quiser estar no peito com menos de duas horas de intervalo da mamada anterior, é possível que este seja o problema, ou então a quantidade de leite não é o bastante mesmo”, orienta Lucilia. Segundo ela, existem diversas maneiras de descobrir se o leite produzido é o ideal para a criança, mas antes de procurar um substituto, procurar um profissional da área é imprescindível. Afinal, pode ser realmente que a produção de leite não seja a adequada.

De olho nos indícios

“Existem alguns fatores que podem influenciar na produção de leite, como por exemplo, a quantidade de líquido que a mãe toma”, explica Lucilia. Segundo ela, a mulher que está amamentando deve tomar bastante água, suco ou leite, para que o leite seja suficiente. Além disso, estresse e baixa auto-estima podem fazer com que o aleitamento não ocorra de forma esperada. Isso acontece porque, de acordo com Carvalho, a amamentação é um hábito psicossomático – ou seja, se refere não só ao lado orgânico, mas também ao psíquico, da mãe. Por isso, quanto melhor a mulher estiver consigo mesma, melhor para a alimentação do bebê. E quanto mais atenta estiver, também.

A amamentação não é um processo que ocorre de maneira automática e é preciso se preparar para ela. A começar pela maneira que o bebê deve encontrar a mama: sem se restringir apenas ao bico, mas sim à aréola mamária. Além disso, ele deve manter o queixo bem encostado ao peito. Para Carvalho, ainda, é preciso que o bebê mame nos dois peitos cada vez que for se alimentar. “É preciso também lembrar que o último seio utilizado em uma mamada deve ser o primeiro da seguinte”, completa.

Para ele, a quantidade de fraldas trocadas por dia também pode ser um parâmetro para que as mães não se desesperem à toa. “Se o bebê utiliza seis ou mais fraldas por dia, significa que ele está mamando bem”, explica. De acordo com os três especialistas, acompanhar o desenvolvimento do peso da criança é mais uma boa forma de saber se a quantidade de leite está suprindo a necessidade do bebê. Se ele estiver ganhando entre 20 e 40 gramas por dia – aproximadamente 700 gramas por mês –, então não há motivos para preocupação.

Na companhia da balança

Foto: Edu Cesar/Fotoarena

Fabiola Cassab e Paola, de cinco anos: persistência deu certo

O caso da advogada Fabiola Cassab, de 33 anos mostra a necessidade de procurar um pediatra capacitado em amamentação ou especialistas daRede Brasileira de Bancos de Leite Humano para que não haja controvérsias. Fundadora da Matrice, grupo de apoio à amamentação de São Paulo, Fabiola passou por sete pediatras antes de encontrar um especialista que realmente lhe ajudasse na amamentação – e não apenas lhe dissesse que seria necessário complementar a amamentação por não produzir leite o suficiente para a filha Paola, hoje com cinco anos.

“Para mim era muito importante dar de mamar para a minha filha e ter que usar uma fórmula artificial fazia com que eu me sentisse uma deficiente. Tanto que continuei procurando uma solução”, conta Fabiola. E a encontrou. Depois de passar por tantos pediatras, procurou um que era realmente experiente no quesito amamentação. E deu certo: “Todos colocavam a Paola na balança e se prendiam apenas ao peso dela, mas aquele que realmente entendia analisava todo o histórico de desenvolvimento compatível para a idade”.

Fabiola afirma que a análise da curva de crescimento de Paola pesava na hora dos médicos chegarem a um veredicto. Segundo ela, o drama do ganho de peso insatisfatório é um dos principais vividos pelas mães no período de amamentação. Mas o que nenhum doutor considerava era a altura da mãe: 1,56 metro. “É claro que minha filha não ia engordar o mesmo tanto: nossa natureza é menor do que a colocada na tabela” relembra.

Insistente, Fabiola conta que no primeiro mês após o nascimento de Paola usou uma das fórmulas artificiais presentes no mercado para complementar o aleitamento materno, mas após descobrir que não era necessário, cortou o ingrediente rapidamente do dia a dia da filha. Lucilia Faria lembra que até mesmo uma gota que seja do leite materno já vale a pena: “Ele é sempre o melhor e o mais adequado para o filho”.

Insistência em primeiro lugar

Mas na hora da choradeira do bebê e do desespero da mãe por não saber o que fazer, a pediatra indica, em último caso – se não for possível encontrar o pediatra ou um banco de leite no mesmo momento – dar o “leite maternizado” sem excessos. “Nesses casos de extrema necessidade, coloque o bebê para mamar no peito, mesmo que não tenha leite, e depois dê a fórmula com uma colher bem pequena ou um copinho”, indica a especialista. A tática evita que o bebê se acostume à mamadeira e, mais tarde, não queira mais pegar o peito.

Se houver realmente pouco leite por mais tempo do que o esperado, ela indica o uso de bicos ortodônticos de mamadeira que mimetizam bem o seio materno, exigindo mais força para a sucção.
Mas nada como persistir no aleitamento materno para que o leite não deixe as crianças na mão: quanto mais o nenê suga do seio da mãe, mais leite é produzido. “A sucção da criança é o que estimula o cérebro a produzir o leite”, diz Faria. Quando a mamadeira tradicional entra no jogo, portanto, é comum que a mama diminua a produção e a criança fique mais preguiçosa, o que pode aumentar as dificuldades da amamentação –indicada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como fonte de alimentação exclusiva dos bebês até os seis meses, e fonte de alimento complementar até os dois anos de idade da criança.

Para Fabiola, a insistência funcionou perfeitamente. A advogada iniciou o desmame da filha por volta da chegada dela aos três anos de idade, mas até hoje, dois anos depois, Paola tira proveito dos benefícios do leite materno. “Ela come todos os outros alimentos, claro, mas vira e mexe ela pede antes de dormir ou logo ao acordar. É uma opção que dou a ela”, conta Fabiola, orgulhosa pelo sucesso do aleitamento materno.

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